A queda na recuperação de um dependente químico
Culturalmente, a queda possui muito mais atributos negativos do que fatores que nos leve a enxergar seus benefícios. Os pais de uma criança tem medo de que elas venham a cair quando começam a aprender a andar e por isso tomam diversos cuidados para que uma queda não aconteça. Do mesmo modo acontece ao se ensinar alguém a andar de bicicleta que ainda não possua essa habilidade.
Existe ainda o medo de se cair de determinada altura, como de uma escada por exemplo ou de um telhado. Esse medo de cair é justo e necessário pois é exatamente ele quem nos conserva o cuidado em cada ação. Neste sentido, o medo de cair pode ser útil para que isso não venha a acontecer. O grande problema é quando este medo torna-se o motivo para a não realização de uma ação, por exemplo, não se anda de bicicleta não porque não gosta ou não tem vontade, mas porque é perigoso, é o medo da queda.
Enxergando a queda por este aspecto, ela fatalmente será concebida como uma falha, um erro, e, ela de fato também representa isso. Mas, acredito que principalmente tratando-se de dependência química e recuperação essa queda precisa ser concebida sob outro aspecto. Queiramos ou não, a queda é parte do processo de recuperação de um dependente.
Um drogadicto ou alcoolista, quando decide assumir que é um dependente, dá o primeiro passo para sua recuperação. Depois disso ele precisa tomar várias outras decisões que irão afetar radicalmente sua vida,: parar o consumo, trocar os “amigos” e colegas ligados a dependência, hábitos e lugares etc... além de uma grande disposição psicológica para enfrentar as fases de abstinência. Um recomeço. Após essa fase, alguns procuram formas de tratamento: médicos, clinicas, comunidades terapêuticas, grupos de ajuda e apoio mutuo, ONGs entre outros. Ou seja, se um dependente em recuperação vier a cair, é porque ele já percorreu um considerável percurso em sobriedade e desconsiderar isso é favorecer o surgimento de traumas.
A queda mexe com o orgulho, está ligada a confiança que as pessoas ao seu redor e também ele próprio, dependente, põe em sua recuperação e, essa queda, coloca em xeque, em alerta e em duvidas sua abstinência. Quem super valoriza a queda a vera como o máximo do fracasso e da derrota, podendo inclusive esquecer que já superou este máximo de perda quando decidiu se recuperar. A queda, na dependência , não é boa, mas super valorizá-la pode significar o fim das forças de continuar lutando.
A vergonha, o orgulho ferido, a auto piedade, o desespero, o apego as criticas, nada disso pode ser companheiro daquele que anseia por levantar-se e continuar seu processo de recuperação. Sempre há uma justificativa para a queda, seja ela qual for, o importante é analisá-la com cuidado e tentar a partir dessa experiência com a própria queda encontrar um aprendizado para continuar caminhando. As cicatrizes e marcas da queda talvez continuem, mas quem olha fixamente apenas para elas, jamais entenderão e seguirão pelo longo caminho que se abre a sua frente, quando estão de pé;
segunda-feira, 27 de abril de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Contribuições da Logoterapia a favor da recuperação de dependentes químicos
A realidade diária de nossa sociedade nos coloca diante de diversas situações e problemas dos mais variados tipos: sociais, econômicos, religiosos, tecnológico, culturais etc. Dentre essa problemática, ganha cada vez mais espaço e evidência, no dia-a-dia das pessoas e também entre a literatura científica, a busca pelo sentido da vida. Não muito raro essa falta de sentido, pode proporcionar em um indivíduo uma verdadeira apatia diante da vida, desencadeando assim uma série de patologias de todas as ordens, principalmente a depressão e, não muito raro, o suicídio.
Diversos fatores podem contribuir para o fortalecimento dessa falta de sentido existencial: o desemprego, a morte de um ente querido, a violência, a separação etc., contudo, especificarei a presente análise em torno de um único tema de notável problema para a sociedade atual: a dependência química.
O consumo de drogas, e como conseqüência a dependência, tornou-se um problema crônico de caráter mundial. Hoje, lutar contra as drogas se tornou uma verdadeira meta do homem conteporâneo, pois o seu consumo está aliado não apenas aos riscos a saúde de quem a consome, mas está aliado a isso todo problemática global que a droga provoca. Isso porque, ter acesso a tais substanciais se tornou uma tarefa fácil, e que certamente corresponde a um risco, principalmente entre crianças, adolescentes e jovens.
Discorrer, sobre o porquê uma pessoa acaba caindo na dependência é algo que já tem sido demasiadamente explorado na literatura cientifica, tendo como principais evidências: a má formação familiar ou a desintegração da mesma, a união com amizades de má influencia, a falta de estrutura social, o pouco acesso a cultura, lazer e esportes, a falta de uma religiosidade, etc., ou seja, a falta de algo parece estar relacionada ao vicio. Pode-se aqui acrescentar, a falta de algo, ainda não denominado ou identificado, que, pode ser mais tarde percebido como a falta de sentido da vida. Entretanto, o principal motivo desta reflexão não é exatamente entender ou discutir os motivos pelo qual alguém se torna um dependente de algum tipo de substância, o objetivo aqui é apresentar algumas contribuições fundamentais para o seu auxilio e luta contra a dependência. Isso porque, nesses anos em constante entrevista com os usuários de tais substâncias, parece tomar corpo algumas características em comum dos drogadictos. A principal delas: os valores de sua vida se invertem e se direcionam para o alvo de sua dependência. Neste sentido, a Logoterapia pode ser de grande utilidade para essa recuperação.
Entende-se por logoterapia um modelo psicoterapeutico baseado nas experiências de seu fundador, o neurologista e psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl. A base dessa teoria constitui-se na busca pelo sentido da vida. Em outras palavras, para a logoterapia, a busca de sentido na vida da pessoa, é a principal força motivadora do ser humano.
Mas, já é de conhecimento geral a condição sub-humana em que muitas vezes se encontra um dependente, principalmente aquele que se encontram no chamado fundo do poço, ou seja, aquele que se tornou completamente dependente das drogas a ponto de se desfazer de bens e de utilizar qualquer meio para o consumo da mesma. Mas, até mesmo alguém nessa critica situação seria a Logoterapia por ele alcançada? Para o Dr. Frankl sim:
“Por piores que sejam as circunstâncias da vida, sempre é possível encontrar sentido na vida”.
Até mesmo na pior situação de dependência, é possível encontrar um sentido para a vida. Entretanto, e talvez seja essa uma das principais diferenças da logoterapia, não caíamos no equivoco de julgar essa fala acima descrita como um pensamento apenas teórico, isso porque a teoria construída pelo Dr. Frankl não foi elaborada em um escritório ou em uma confortável biblioteca. Essa teoria emergiu, da própria experiência que o Dr. Frankl teve como prisioneiro nos campos de concentrações nazista. Dessa forma, falamos de alguém, que em uma das piores situações em que pode viver o ser humano, conseguiu encontrar um sentido para a sua existência. Talvez, a primeira contribuição que um dependente em recuperação pode encontrar na logoterapia é saber, que até mesmo ele, pode e deve procurar perguntar sobre o sentido de sua existência.
Mas, seguindo as contribuições da Logoterapia, pode-se dizer que este sentido existencial não precisa ser dado, ele precisa ser encontrado, ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa humana ou da psique. É abrindo-se ao outro, a uma tarefa, a uma missão que há de se encontrar o sentido para o qual se vive. Isso não exclui de forma alguma do tratamento ou até mesmo da vida o caráter meditativo do crescimento interior, pelo contrário, apenas uma pessoa capaz dessa integração consigo mesma conseguirá buscar livremente o sentido de sua existência. Ou seja, a auto-realização depende dessa capacidade de auto-transcedencia, de sair de si mesmo em direção ao outro.
A dinâmica dos 12 passos, utilizada muitas vezes no auxilio a recuperação de alcoolistas e drogadictos, refere-se à meditação, reparação passada, compreensão dos danos causados, capacidade de admitir os erros, despertar o crescimento e maturidade etc. Neste sentido, a logoterapia se encaixa em perfeita harmonia como seqüência desses passos, pois a Logoterapia se concentra mais no futuro, ou seja, nos sentidos a serem realizados pelo paciente em seu futuro. Após os 12 passos, rompe-se o auto-centrismo, é hora de reorientar a vida para o futuro.
O Dr. Fraklil deixa algumas contribuições específicas para descobrir a busca pelo sentido da vida a partir de 3 diferentes formas:
1 - Criando um trabalho ou praticando algo
2 – Experimentando algo ou encontrando alguém
3 – Pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável
Dentre aqueles que conseguem fielmente manter-se sóbrio em sua luta contra a dependência, encontraremos quase sempre, pessoas que encontraram algum trabalho para realizar, alguns, dependendo do local em que ficou em recuperação, passam a contribuir nessa mesma causa. Em outros casos, o dependente em recuperação, agora sóbrio, pode novamente buscar e encontrar o verdadeiro sentido do amor. Não mais o amor egoísta, exploratório, interesseiro, mas aquele amor onde, ele próprio busca outro ser humano em sua originalidade. Buscando a beleza das coisas criadas, a bondade, a verdade, a cultura. Enfim, ele ama.
Contudo, independente de nossas opções, o sofrimento, algum dia, há de se aproximar e muitas vezes é o não aceitamento deste sofrimento que provoca a queda de muitas pessoas que ficaram abstênicas por algum tempo. São pessoas que não suportam o sofrimento que lhe aparecem e voltam a cair em seus vícios e, muitas vezes de forma ainda mais agressiva e acentuada. De acordo com as contribuições da logoterapia, é preciso estar preparado para encontrar um sentido na vida no próprio sofrimento. Quando já não somos capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós próprios.
Todas essas transformações de caráter objetivo na conduta da vida estão norteadas por duas máximas da Logoterapia: a responsabilidade do ser humano frente a sua vida e os valores que a norteiam.
O primeiro aspecto de responsabilidade é de grande importância e, ele vai acontecer de fato, quando o individuo compreender que, ele é capaz de direcionar sua vida para o objetivo que ele almejar:
“O ser humano não é completamente condicionado e definido. Ele define a si próprio seja cedendo às circunstâncias, seja se insurgindo diante delas. Em outras palavras, o ser humano é, essencialmente, dotado de livre-arbítrio. Ele não existe simplesmente, mas sempre decide como será sua existência, o que ele se tornará no momento seguinte”.
Dessa forma, mesmo o resultado de uma drogadição por longa data, não pode ser o determinante para que a vida de tal pessoa continue sob um aspecto negativo. Existe muitas pessoas, que mesmo após o tratamento e recuperação, continuam se martirizando pelo vicio outrora empreendido, e não conseguem mais denotar sua vida de sentido. Esses são os mais propensos a uma recaída futura.
O segundo aspecto que pretendo mencionar é o dos valores. Na drogadição, o maior valor que o dependente crônico tem é a droga. Para este fim, todo esforço é realizado. Tudo se torna segundo plano, sua família, amigos de sobriedade, sociedade, cultura, política, profissão e, até mesmo sua própria vida. Mas, o que ele precisa, não é nem tanto desvalorizar as drogas, pois os seus prejuízos e problemas oriundos de seu uso ele já conhece bem, antes de tudo, o que ele precisa é, buscar os seus valores, e que talvez, a droga tenha-o impedido de enxergá-los. Isso significa que, o que ele necessita para sua plena recuperação não é apenas enxergar ou reconhecer os valores perdidos, e sim, revive-los. Talvez seja o valor do respeito e reconhecimento dos pais, da responsabilidade para com o emprego, do suor e cansaço do trabalho, dos valores da religião que professa, do valor que ele emprega a sua própria vida... O ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores.
Por fim, poderíamos concluir essa reflexão com outro tema relevante na obra de Victor Frankl, o supra sentido. Para um dependente, que realizou a escola dos 12 passos, este tema lhe é familiar. O Supra-sentido, diz respeito à concepção de que, este mundo visível, não é o ponto final de toda a existência. Abre-se assim, um espaço, para ser preenchido de acordo com os valores de crença que cada um traz e que já foi despertado na realização dos 12 passos. Tudo o que vivemos nessa Terra, não pode ser a ultima instancia.
Assim, aliado as vertentes da Logoterapia, que foi aqui de maneira muito breve mencionada, acredito que um dependente químico em recuperação pode se apoiar nas propostas aqui lançadas para edificar sua vida a partir dos princípios de uma terapia voltada para o sentido de sua vida. É preciso compreender que quem tem um porque, supera qualquer como. Uma análise logoterapeutica dessa recuperação pode contribuir de forma eficaz para que essa recuperação seja saudável e duradoura. A recuperação de um dependente deve levar em conta a reflexão dos atos passados, uma vez que são formados por situações que requer muito cuidado e acompanhamento. Mas, chega um ponto do tratamento, onde este indivíduo precisa começar a repensar sua vida, e isso irá acontecer de forma efetiva quando ele começar a buscar um sentido para a mesma. Acredito que é onde também a logoterapia poderá lhe oferecer a sua maior contribuição.
Adriano Oliveira
adrianodefo@yahoo.com.br
Diversos fatores podem contribuir para o fortalecimento dessa falta de sentido existencial: o desemprego, a morte de um ente querido, a violência, a separação etc., contudo, especificarei a presente análise em torno de um único tema de notável problema para a sociedade atual: a dependência química.
O consumo de drogas, e como conseqüência a dependência, tornou-se um problema crônico de caráter mundial. Hoje, lutar contra as drogas se tornou uma verdadeira meta do homem conteporâneo, pois o seu consumo está aliado não apenas aos riscos a saúde de quem a consome, mas está aliado a isso todo problemática global que a droga provoca. Isso porque, ter acesso a tais substanciais se tornou uma tarefa fácil, e que certamente corresponde a um risco, principalmente entre crianças, adolescentes e jovens.
Discorrer, sobre o porquê uma pessoa acaba caindo na dependência é algo que já tem sido demasiadamente explorado na literatura cientifica, tendo como principais evidências: a má formação familiar ou a desintegração da mesma, a união com amizades de má influencia, a falta de estrutura social, o pouco acesso a cultura, lazer e esportes, a falta de uma religiosidade, etc., ou seja, a falta de algo parece estar relacionada ao vicio. Pode-se aqui acrescentar, a falta de algo, ainda não denominado ou identificado, que, pode ser mais tarde percebido como a falta de sentido da vida. Entretanto, o principal motivo desta reflexão não é exatamente entender ou discutir os motivos pelo qual alguém se torna um dependente de algum tipo de substância, o objetivo aqui é apresentar algumas contribuições fundamentais para o seu auxilio e luta contra a dependência. Isso porque, nesses anos em constante entrevista com os usuários de tais substâncias, parece tomar corpo algumas características em comum dos drogadictos. A principal delas: os valores de sua vida se invertem e se direcionam para o alvo de sua dependência. Neste sentido, a Logoterapia pode ser de grande utilidade para essa recuperação.
Entende-se por logoterapia um modelo psicoterapeutico baseado nas experiências de seu fundador, o neurologista e psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl. A base dessa teoria constitui-se na busca pelo sentido da vida. Em outras palavras, para a logoterapia, a busca de sentido na vida da pessoa, é a principal força motivadora do ser humano.
Mas, já é de conhecimento geral a condição sub-humana em que muitas vezes se encontra um dependente, principalmente aquele que se encontram no chamado fundo do poço, ou seja, aquele que se tornou completamente dependente das drogas a ponto de se desfazer de bens e de utilizar qualquer meio para o consumo da mesma. Mas, até mesmo alguém nessa critica situação seria a Logoterapia por ele alcançada? Para o Dr. Frankl sim:
“Por piores que sejam as circunstâncias da vida, sempre é possível encontrar sentido na vida”.
Até mesmo na pior situação de dependência, é possível encontrar um sentido para a vida. Entretanto, e talvez seja essa uma das principais diferenças da logoterapia, não caíamos no equivoco de julgar essa fala acima descrita como um pensamento apenas teórico, isso porque a teoria construída pelo Dr. Frankl não foi elaborada em um escritório ou em uma confortável biblioteca. Essa teoria emergiu, da própria experiência que o Dr. Frankl teve como prisioneiro nos campos de concentrações nazista. Dessa forma, falamos de alguém, que em uma das piores situações em que pode viver o ser humano, conseguiu encontrar um sentido para a sua existência. Talvez, a primeira contribuição que um dependente em recuperação pode encontrar na logoterapia é saber, que até mesmo ele, pode e deve procurar perguntar sobre o sentido de sua existência.
Mas, seguindo as contribuições da Logoterapia, pode-se dizer que este sentido existencial não precisa ser dado, ele precisa ser encontrado, ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa humana ou da psique. É abrindo-se ao outro, a uma tarefa, a uma missão que há de se encontrar o sentido para o qual se vive. Isso não exclui de forma alguma do tratamento ou até mesmo da vida o caráter meditativo do crescimento interior, pelo contrário, apenas uma pessoa capaz dessa integração consigo mesma conseguirá buscar livremente o sentido de sua existência. Ou seja, a auto-realização depende dessa capacidade de auto-transcedencia, de sair de si mesmo em direção ao outro.
A dinâmica dos 12 passos, utilizada muitas vezes no auxilio a recuperação de alcoolistas e drogadictos, refere-se à meditação, reparação passada, compreensão dos danos causados, capacidade de admitir os erros, despertar o crescimento e maturidade etc. Neste sentido, a logoterapia se encaixa em perfeita harmonia como seqüência desses passos, pois a Logoterapia se concentra mais no futuro, ou seja, nos sentidos a serem realizados pelo paciente em seu futuro. Após os 12 passos, rompe-se o auto-centrismo, é hora de reorientar a vida para o futuro.
O Dr. Fraklil deixa algumas contribuições específicas para descobrir a busca pelo sentido da vida a partir de 3 diferentes formas:
1 - Criando um trabalho ou praticando algo
2 – Experimentando algo ou encontrando alguém
3 – Pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável
Dentre aqueles que conseguem fielmente manter-se sóbrio em sua luta contra a dependência, encontraremos quase sempre, pessoas que encontraram algum trabalho para realizar, alguns, dependendo do local em que ficou em recuperação, passam a contribuir nessa mesma causa. Em outros casos, o dependente em recuperação, agora sóbrio, pode novamente buscar e encontrar o verdadeiro sentido do amor. Não mais o amor egoísta, exploratório, interesseiro, mas aquele amor onde, ele próprio busca outro ser humano em sua originalidade. Buscando a beleza das coisas criadas, a bondade, a verdade, a cultura. Enfim, ele ama.
Contudo, independente de nossas opções, o sofrimento, algum dia, há de se aproximar e muitas vezes é o não aceitamento deste sofrimento que provoca a queda de muitas pessoas que ficaram abstênicas por algum tempo. São pessoas que não suportam o sofrimento que lhe aparecem e voltam a cair em seus vícios e, muitas vezes de forma ainda mais agressiva e acentuada. De acordo com as contribuições da logoterapia, é preciso estar preparado para encontrar um sentido na vida no próprio sofrimento. Quando já não somos capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós próprios.
Todas essas transformações de caráter objetivo na conduta da vida estão norteadas por duas máximas da Logoterapia: a responsabilidade do ser humano frente a sua vida e os valores que a norteiam.
O primeiro aspecto de responsabilidade é de grande importância e, ele vai acontecer de fato, quando o individuo compreender que, ele é capaz de direcionar sua vida para o objetivo que ele almejar:
“O ser humano não é completamente condicionado e definido. Ele define a si próprio seja cedendo às circunstâncias, seja se insurgindo diante delas. Em outras palavras, o ser humano é, essencialmente, dotado de livre-arbítrio. Ele não existe simplesmente, mas sempre decide como será sua existência, o que ele se tornará no momento seguinte”.
Dessa forma, mesmo o resultado de uma drogadição por longa data, não pode ser o determinante para que a vida de tal pessoa continue sob um aspecto negativo. Existe muitas pessoas, que mesmo após o tratamento e recuperação, continuam se martirizando pelo vicio outrora empreendido, e não conseguem mais denotar sua vida de sentido. Esses são os mais propensos a uma recaída futura.
O segundo aspecto que pretendo mencionar é o dos valores. Na drogadição, o maior valor que o dependente crônico tem é a droga. Para este fim, todo esforço é realizado. Tudo se torna segundo plano, sua família, amigos de sobriedade, sociedade, cultura, política, profissão e, até mesmo sua própria vida. Mas, o que ele precisa, não é nem tanto desvalorizar as drogas, pois os seus prejuízos e problemas oriundos de seu uso ele já conhece bem, antes de tudo, o que ele precisa é, buscar os seus valores, e que talvez, a droga tenha-o impedido de enxergá-los. Isso significa que, o que ele necessita para sua plena recuperação não é apenas enxergar ou reconhecer os valores perdidos, e sim, revive-los. Talvez seja o valor do respeito e reconhecimento dos pais, da responsabilidade para com o emprego, do suor e cansaço do trabalho, dos valores da religião que professa, do valor que ele emprega a sua própria vida... O ser humano é capaz de viver e até morrer por seus ideais e valores.
Por fim, poderíamos concluir essa reflexão com outro tema relevante na obra de Victor Frankl, o supra sentido. Para um dependente, que realizou a escola dos 12 passos, este tema lhe é familiar. O Supra-sentido, diz respeito à concepção de que, este mundo visível, não é o ponto final de toda a existência. Abre-se assim, um espaço, para ser preenchido de acordo com os valores de crença que cada um traz e que já foi despertado na realização dos 12 passos. Tudo o que vivemos nessa Terra, não pode ser a ultima instancia.
Assim, aliado as vertentes da Logoterapia, que foi aqui de maneira muito breve mencionada, acredito que um dependente químico em recuperação pode se apoiar nas propostas aqui lançadas para edificar sua vida a partir dos princípios de uma terapia voltada para o sentido de sua vida. É preciso compreender que quem tem um porque, supera qualquer como. Uma análise logoterapeutica dessa recuperação pode contribuir de forma eficaz para que essa recuperação seja saudável e duradoura. A recuperação de um dependente deve levar em conta a reflexão dos atos passados, uma vez que são formados por situações que requer muito cuidado e acompanhamento. Mas, chega um ponto do tratamento, onde este indivíduo precisa começar a repensar sua vida, e isso irá acontecer de forma efetiva quando ele começar a buscar um sentido para a mesma. Acredito que é onde também a logoterapia poderá lhe oferecer a sua maior contribuição.
Adriano Oliveira
adrianodefo@yahoo.com.br
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